
Almoçamos todas as semanas, há alguns anos, eu e o pai vamos sempre ao mesmo lugar.
No restaurante está sempre o mesmo senhor.
Dele só sabia que tinha um António, com quem metia conversa de vez em quando, sem direito a troco na resposta.
Gosto do ritual de me sentar e ele já sabe o que trazer, sabe que só quero meias-doses e que não gosto de açúcar no café, apesar de querer sempre a colher para misturar a espuma.
Não trocamos muitas palavras, até porque o pai é de poucas conversas com as pessoas em geral.
Hoje, talvez por nos ouvir a falar da minha mana, parou diante da mesa e perdeu-se a falar:
“Ele já sabe quase ler, já sabe juntar as letras. Está na 1ª classe, entrou agora em Setembro e adora ir para a escola. Não chorou nada, vai sempre todo contente”.
Sorrimos e falámos todos das férias das crianças e que gostaríamos que fossem também as férias dos adultos. Sim, conversa de circunstância de quem não sabe o que dizer.
Retomou de repente e sem esperarmos:“O António parece uma carraça, mal me vê, agarra-se a mim e não me larga. Até à noite tem de estar colado a mim e se adormece longe, lá vem ele, com os pezitos pelo chão suavemente e vem enfiar-se na minha cama. Às vezes vai dormir aos avós, mas quando acorda eu tenho de estar lá ao lado. E estou sempre. Deve ser mau para ele esta dependência de mim, mas ele está comigo desde os dois anos e está comigo para tudo, para acordar, para ir à escola, tomar banho, jogar à bola nos fins-de-semana… Oh, para tudo!”.
Interrompo e inevitavelmente pergunto pela mãe do António.
“De vez em quando vem almoçar com ele”…
Os olhos ficam parados em nós, como se esperasse uma solução nossa.
Arrependo-me de me intrometer com perguntas a mais, mas percebo que, sem saber o porquê, aquele senhor cujo nome não sei, hoje precisou de falar do seu filhote de 6 anos.
Comento que quando um falha, é o filho que fica com deficiências de afectos, mas que a vida é assim mesmo.
A resposta serviu e ele afastou-se, na verdade não quero ficar a pensar no António, mas já é tarde…
O meu pai não volta a falar.
Traz-me ao trabalho, como se me levasse à escola.
Damos sempre um beijinho fugido e voltamos a ver-nos no mesmo dia da próxima semana.
E eu trago o António na cabeça e no coração e penso que não é um menino infeliz só por não ter tudo, tem um pai que o adora e faz dele o seu companheiro para tudo e essa é a forma mais plena do amor.
E penso que às vezes sou um António, outras vezes sinto falta de um.
Mas há coisas na vida que, quando assumimos, têm de ser para sempre e um António é para sempre.